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O que Melzi descreveu

June 12, 2010

Melzi não poderia descrever isto. Não sendo treinado de uma forma tão diferente como ele foi.

Em toda alvorada ele se levanta antes de todos, sai da cabana onde dorme e é enfeitiçado. Não por uma bruxa ruim, mas por um músico que dissolve a obliteração que lhe enchia os olhos de areia. Neste momento, olhando ao contrário ele lembra os últimos resquícios de treva. No mesmo lugar onde, mais tarde, será mais alvo que tudo.

Os amigos de Melzi contariam isto como eu conto, utilizando palavras, mesmo se eles estivessem contando para si mesmos. Mas não este recém encantado que, em seguida, abre o grimório mais poderoso de todos e aprende o próximo passo para a magia de verdade. Ele lê o grimório. Os amigos também tem o grimório, mas não lêem.

– Porque não querem.

É assim. Além disso, a miríade de vantagens de ser um leitor do livro de segredos encantaria qualquer um dos amigos.

– Gozos maiores que qualquer carícia pode produzir, êxtases mais prolongados que os de vossos vinhos. Verdade.

Melzi contaria isto ativando um dínamo hipocampal que rapidamente atuaria acionando outras estações por todo seu âmago plástico a meio caminho entre a penumbra e a luz. No entanto, mesmo que toda esta geração de força viva fosse reproduzida perfeitamente nos amigos, eles não poderiam entendê-lo. Porque não treinaram de uma forma diferente.

Depois de encontrar o bardo que cavalga alto e cedo, Melzi se encontra com outro planinalta de vida em sua forma original. Este não voa alto, pelo contrário, rasteja. Rasteja como uma cobra com a cabeça de um lado e depois do outro. Ora rastejando para o bote perfurador, ora rastejando levando para casa, sempre chacoalhando um anuncio salobro salubre. A cobra que escolhe para onde olha tira a morte do corpo amanhecido do pernoitado na cabana. Tira a morte levando a vida. Vida que deu a quem ditou o grimório. Grimório que Melzi lê pela manhã e que os amigos não.

Mesmo que tentasse contar com números e prosas ele não conseguiria. O treinamento diferente o faz ler o grimório com dança entre os amigos, do jeito que foi escrito. Apesar disso, ninguém o vê dançar, por significar entendimento das palavras.

Quem ensinou este iniciado a dançar foi um senhor que dançava antes dele. Com barbas fartas e olhos buscando uma verdade distante que se aproximava em rápidas repetições sob a mesma face da Lua. Todo o gingado maneiro atrai esfriando, acalma perfumando e sacia cantando num saboreio sob o bardo, olhando a cobra nos olhos.

– Se o bardo orquestra e a cobra rasteja parindo, tudo que você precisa fazer é dançar pelos amigos. No ritmo agradável das notas sob e sobre seus cabelos. Se você gosta da música do bardo e da cobra, dance. Se não gostar, espere doer.

Assim foi o treinamento. Depois o ancillae puxou um fio dourado da cabeça, partiu em dois e abriu os olhos. Neófito, Melzi decidiu saracotear. Sozinho, ele mal sabia se mexer. Mas manteve porque gostava da música e não queria esperar doer. De tão agradável, dançar era mais um desculpa para ouvir.

Juntando dois ou três tijolos em seu muro rasteiro, não precisava de fosso e roldana porque tinha cabana. Depois concordou em espírito com o treino e achou o grimório que dançava bem antes dele. Viu que tinham algumas runas no grimório e sorriu com dentes de olhos que ameaçam entreabrir em dopamina pipal. Viu que aquela magia se conjura em diferentes cores desde que estrelas abraçam estrelas. Voltou a encontrar com o mestre, agora de olhos bem abertos continuava falando, pintando, tocando, cozinhando, perfumando, adornando, planejando e sorrindo. Dançava, mas principalmente cantava, agora mais que nunca porque tinha aprendido, em novas conexões, os novos movimentos que se esgueiram além da serpente onde o trovador repousa.

Se Melzi descreve os amigos não acreditam. Não mordem o velho, não engolem o tocador e não bebem o dragão. Lêem as runas, sabem ser místicas e esperam uma bola de fogo saindo da boca de um estômago sem gelo.

Mas quando a areia voltou-lhe à vista, ponderou e pensou na cabana. Animou-se pelas encostas de um monte sedutor, que lembrou os fascínios ortogonais de choques do filho da víbora. Se entregando chegou à cabana. Aceitou a areia que lhe trouxe deitado a lira do bardo, que carregava belo um belo vaso com um pedaço da cobra dentro. Agradeceu quando o vaso foi virado e o pedaço lhe lambuzou a cabeça. E o bardo do júbilo cantou algo que jamais poderia ser dito assim:

Abre teus olhos

Olha este vaso

Antes de ti, teu treinador me ouviu

Agora é tua vez de cantar aos amigos

Porque cantar é mais que dançar

Do teu lado se dança, que é um treino pro canto

Mas daqui, sem w se canta

Os amigos aprendem, como tu aprendeste

Rápidos, para tua surpresa

Que numa volta, parece que torcem ao mesmo lugar

E na pousada que lhes morde

Pensam nunca chegaram

Teu mestre dançou e agora canta pra ti

Tu serás mestre e cantará a um discípulo

Bem antes de vocês

O mestre do grimório

Cantou aos runistas

Teu mestre ouviu dos runistas

Tu ouviste dos runistas

E do mestre do grimório

Que dançou e canta

E tu, por acaso não queres cantar?

Alvorando de olhos abertos, beijando o bardo e as barbas do mestre, verteu alegria, trazida em cheirado. Melzi saiu a cantar, tocou num ombro e emitiu o começo da hosana: Melzi.

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