Archive for the ‘Biografias teóricas’ Category

Conselhos para o estudante de engenharia – por Leonardo da Vinci

March 6, 2011

Este texto é inspirado no livro The Notebooks of Leonardo da Vinci

O seguinte post é uma invenção tradução do recém encontrado “Trattato della Ingegneria” do meu amigo próximo, Leonardo di ser Piero da Vinci. Mamãe só o chama de Leo. Este tratado consiste em um livreto que contém entre desenhos e fórmulas, 10 dicas para guiar o aluno de Engenharia, como mostrado nas figuras abaixo. O texto foi todo escrito com a mão esquerda e de trás para frente e é conhecido como “Codice Lvdovicienzzi”. Nós precisáramos de um espelho e de um dicionário de italiano toscano antigo para tradução. Esperamos que o leitor achasse o texto útil.

  1. La sapieta è figliola della sperieta. A sabedoria é filha da experiência. E no curso de engenharia, os alunos são cobrados resultados práticos e não discursos convincentes, ou provas de que leram enciclopédias, portanto, é mais importante se dedicar a resolver o maior número de exercícios e realizar experimentos laboratoriais que ler a opinião das pessoas sobre o assunto.
  2. Quelli che s’inamora di pratica saza scietia so come ‘l nocchiere Che etra navilio sanza timone e bussola, chè mai à certezza dove si vada. Aquele que se apaixona pela prática sem ciência é como o marinheiro que entra em um navio sem timão ou bússola, e que nunca tem certeza para onde vai. Assim, sabemos que a prática é mais importante e que a resolução de exercícios é que vão garantir boas notas. Mas vale lembrar que esquecer o valor de uma boa teoria é uma tolice. Então, a regra é ler um pouco para entender a teoria e praticar o dobro para ganhar experiência.
  3. Nessuna certezza delle scietie è, dove no si può applicare vna delle scietie matematiche e che non sono vnite com esse matematiche.
    Não há certeza nas ciências em que uma ciência matemática não pode ser aplicada, ou que não tem relação com matemáticas. Engenharia é escrita na linguagem da matemática e da precisão, logo, se o candidato a engenheiro não tem muita prática com esta ciência, é importante que ele dedique algum tempo para fazer exercícios e acostumar sua intuição com a Arte. Em um próximo post publicaremos “Como estudar Matemática: entendendo equações como um pintor” também escrito por Leo e nós.
  4. Tristo è quel discepolo che nona vaza Il suo maestro.
    Triste é o discípulo que não supera o seu mestre. A tecnologia está sempre avançando. Novos materiais de estudos surgem a cada dia nas bibliotecas e internet. Se tu não gostas ou não entendes o teu professor, não odeie a disciplina ou ache que não podes aprender. Apenas procure por novas fontes de explicação e supere as de seu mestre. E repetimos, tenha tuas próprias experiências, sejam elas matemáticas ou laboratoriais.
  5. Dico e confermo che ‘l disegniare i copagnia è molto meglio che solo. Eu digo e repito que desenhar estudar engenharia é muito melhor em companhia que sozinho. Ajuda bastante ter um grupo de estudos que se reúna semanalmente ou mensalmente para compartilhar experiências e resolver exercícios. Além disso, a responsabilidade de fornecer material de qualidade para os colegas estimula o estudante a se dedicar e evita a sobrecarga de tarefas.
  6. E se tu sarai solo tu sarai tutto tuo, e se serai acompagniato da uno solo copagnio sarai mezzo tuo. Se tu estiveres sozinho, serás todo teu, se tiveres uma companhia, serás apenas metade teu. Isto é, por mais que tenhamos um grupo de estudo, é necessário que também tenhamos momentos diários para trabalharmos sozinhos e guiados somente por nossos pensamentos, sem os empecilhos causados por companhias indiscretas, celulares, facesbook ou MSN pombo correio, ou outras distrações.
  7. Questa benigna natura ne provede i modo che per tutto Il modo tu trovi dove imitare. A Natureza beneficientemente provê por todo mundo algo que você possa achar para imitar. Deste modo, sempre que precisamos de um projeto, tema para dissertação ou monografia, é mais sábio procurar pelo mundo algum exemplo que nos sirva de inspiração, que inventar algo de nossas cabeças, sem nenhuma experiência para respaldar. Achar tais exemplos se torna ainda mais fácil quando o aluno se engaja desde os primeiros períodos para trabalhar em um laboratório de pesquisa ou de prestação de serviços.
  8. e quelli notare co brevi segni in questa forma su um tuo Piccolo libretto, Il quale tu devi sepre portar co teco… E tome notas breves em um pequeno caderno que tu deves sempre carregar contigo. Nossa memória tem limitações e em um mundo tão vasto quanto o das engenharias e matemáticas, é necessário tomar notas. Além disso, o simples ato de escrever sobre um assunto ajuda na assimilação e rememoração. Isto não significa que o aluno deva transcrever toda uma aula ou escrever toda idéia que surja na cabeça. Mas é imprescindível fazer anotações simples, inteligíveis e que possam ser retrabalhados com mais cuidado quando se tiver tempo.
  9. … perchè gli manca assai di degnità a fare vna cosa bene e l’altra male… Porque há muita falta de auto-respeito em se fazer algumas coisas bem e outras mal. Ou seja, nada de escolher duas ou três disciplinas para ir bem e se conformar com notas baixas nas outras. O ser humano tem limitações por Natureza, não que isto seja vergonhoso, mas nem por isso devemos viver sem fazer um esforço para obter resultados aceitáveis nas exigências básicas. Saiba reservar um tempo para estudar todas as disciplinas do período.
  10. Chi uuole essere ricco in v dì e impiccato in vn anno. Aquele que quiser enricar em um dia será enforcado em um ano. Em um mercado tão competitivo como o das Engenharias, é tolice achar que vai se tornar bem sucedido rapidamente. Nenhuma boa idéia, nem mesmo boas notas, virão sem o esforço devido e experiência. Todo bom engenheiro tem que se esforçar e quanto mais sedo ele começar o seu trabalho, mais tempo terá para fazer uma boa obra. Deste modo, não deixe os trabalhos, estudos para provas ou mesmo a monografia para o último momento ou período. Adiante seus trabalhos aos poucos, sem pressa, mas sem parar. Ao aluno, desejamos boa vontade, paciência e boa sorte!

PS: Como todo bom engenheiro, Leonardo também nos deixou piadas:

Fu dimadato vn pittore perchè, faciedo lui de’ figure si belle che era cose morte, per che causa esso avesse fatti i figlioli si brutti; allora Il pittore rispose che le pitture fecie di dì, e i figlioli di notte. Perguntaram a um pintor porque ele fazia tantas figuras belas, que são coisas sem vida, mas fazia seus filhos tão feios. Ao que o pintor respondeu: – É que minhas pinturas eu faço de dia e meus filhos, faço a noite. – Leo.

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O que Melzi descreveu

June 12, 2010

Melzi não poderia descrever isto. Não sendo treinado de uma forma tão diferente como ele foi.

Em toda alvorada ele se levanta antes de todos, sai da cabana onde dorme e é enfeitiçado. Não por uma bruxa ruim, mas por um músico que dissolve a obliteração que lhe enchia os olhos de areia. Neste momento, olhando ao contrário ele lembra os últimos resquícios de treva. No mesmo lugar onde, mais tarde, será mais alvo que tudo.

Os amigos de Melzi contariam isto como eu conto, utilizando palavras, mesmo se eles estivessem contando para si mesmos. Mas não este recém encantado que, em seguida, abre o grimório mais poderoso de todos e aprende o próximo passo para a magia de verdade. Ele lê o grimório. Os amigos também tem o grimório, mas não lêem.

– Porque não querem.

É assim. Além disso, a miríade de vantagens de ser um leitor do livro de segredos encantaria qualquer um dos amigos.

– Gozos maiores que qualquer carícia pode produzir, êxtases mais prolongados que os de vossos vinhos. Verdade.

Melzi contaria isto ativando um dínamo hipocampal que rapidamente atuaria acionando outras estações por todo seu âmago plástico a meio caminho entre a penumbra e a luz. No entanto, mesmo que toda esta geração de força viva fosse reproduzida perfeitamente nos amigos, eles não poderiam entendê-lo. Porque não treinaram de uma forma diferente.

Depois de encontrar o bardo que cavalga alto e cedo, Melzi se encontra com outro planinalta de vida em sua forma original. Este não voa alto, pelo contrário, rasteja. Rasteja como uma cobra com a cabeça de um lado e depois do outro. Ora rastejando para o bote perfurador, ora rastejando levando para casa, sempre chacoalhando um anuncio salobro salubre. A cobra que escolhe para onde olha tira a morte do corpo amanhecido do pernoitado na cabana. Tira a morte levando a vida. Vida que deu a quem ditou o grimório. Grimório que Melzi lê pela manhã e que os amigos não.

Mesmo que tentasse contar com números e prosas ele não conseguiria. O treinamento diferente o faz ler o grimório com dança entre os amigos, do jeito que foi escrito. Apesar disso, ninguém o vê dançar, por significar entendimento das palavras.

Quem ensinou este iniciado a dançar foi um senhor que dançava antes dele. Com barbas fartas e olhos buscando uma verdade distante que se aproximava em rápidas repetições sob a mesma face da Lua. Todo o gingado maneiro atrai esfriando, acalma perfumando e sacia cantando num saboreio sob o bardo, olhando a cobra nos olhos.

– Se o bardo orquestra e a cobra rasteja parindo, tudo que você precisa fazer é dançar pelos amigos. No ritmo agradável das notas sob e sobre seus cabelos. Se você gosta da música do bardo e da cobra, dance. Se não gostar, espere doer.

Assim foi o treinamento. Depois o ancillae puxou um fio dourado da cabeça, partiu em dois e abriu os olhos. Neófito, Melzi decidiu saracotear. Sozinho, ele mal sabia se mexer. Mas manteve porque gostava da música e não queria esperar doer. De tão agradável, dançar era mais um desculpa para ouvir.

Juntando dois ou três tijolos em seu muro rasteiro, não precisava de fosso e roldana porque tinha cabana. Depois concordou em espírito com o treino e achou o grimório que dançava bem antes dele. Viu que tinham algumas runas no grimório e sorriu com dentes de olhos que ameaçam entreabrir em dopamina pipal. Viu que aquela magia se conjura em diferentes cores desde que estrelas abraçam estrelas. Voltou a encontrar com o mestre, agora de olhos bem abertos continuava falando, pintando, tocando, cozinhando, perfumando, adornando, planejando e sorrindo. Dançava, mas principalmente cantava, agora mais que nunca porque tinha aprendido, em novas conexões, os novos movimentos que se esgueiram além da serpente onde o trovador repousa.

Se Melzi descreve os amigos não acreditam. Não mordem o velho, não engolem o tocador e não bebem o dragão. Lêem as runas, sabem ser místicas e esperam uma bola de fogo saindo da boca de um estômago sem gelo.

Mas quando a areia voltou-lhe à vista, ponderou e pensou na cabana. Animou-se pelas encostas de um monte sedutor, que lembrou os fascínios ortogonais de choques do filho da víbora. Se entregando chegou à cabana. Aceitou a areia que lhe trouxe deitado a lira do bardo, que carregava belo um belo vaso com um pedaço da cobra dentro. Agradeceu quando o vaso foi virado e o pedaço lhe lambuzou a cabeça. E o bardo do júbilo cantou algo que jamais poderia ser dito assim:

Abre teus olhos

Olha este vaso

Antes de ti, teu treinador me ouviu

Agora é tua vez de cantar aos amigos

Porque cantar é mais que dançar

Do teu lado se dança, que é um treino pro canto

Mas daqui, sem w se canta

Os amigos aprendem, como tu aprendeste

Rápidos, para tua surpresa

Que numa volta, parece que torcem ao mesmo lugar

E na pousada que lhes morde

Pensam nunca chegaram

Teu mestre dançou e agora canta pra ti

Tu serás mestre e cantará a um discípulo

Bem antes de vocês

O mestre do grimório

Cantou aos runistas

Teu mestre ouviu dos runistas

Tu ouviste dos runistas

E do mestre do grimório

Que dançou e canta

E tu, por acaso não queres cantar?

Alvorando de olhos abertos, beijando o bardo e as barbas do mestre, verteu alegria, trazida em cheirado. Melzi saiu a cantar, tocou num ombro e emitiu o começo da hosana: Melzi.

Os sete hábitos de trabalho de Aluísio Azevedo

March 20, 2010

“Eu me divirto com a mediocridade alheia”. (um nosso irmão)

“Ah, meu filho, eu não nasci pra viver em cortiço”. (mamãe)

As frazes acima foram as que nos motivaram a ler o O Cortiço de Aluísio Azevedo. Na  edição deste livro que tem aqui em casa, vão algumas considerações interessantes sobre o autor, dizendo inclusive, que ele foi o primeiro brasileiro a viver unicamente da literatura. Achei muito interessante um conterrâneo ser o primeiro a fazer algo, visto que nossa terra (São Luís do Maranhão) tem fama de copiar e abrir barbearias uma do lado da outra pra “fazer concorrência”. Porém, o fato deste escritor ter vivido no século XIX fez com que não seja fácil obter informações cruciais do tipo “como esse sujeito fazia pra conseguir sobreviver só escrevendo?”. Isto é o que nos inspirou a [invent…|deletar] teorizar Os sete hábitos de trabalho de Aluísio  Azevedo.

  1. Acordar cedo e escrever. Por se levantar às 4:30 da manhã, Aluísio tinha a casa em total silêncio por pelo menos quatro horas. Além disso, isto fez com que ele pudesse trabalhar todos os dias no horário em que estava mais bem disposto e muito antes das obrigações triviais.
  2. Trabalhar em blocos de tempo. Enquanto escrevia Casa de Pensão, o autor percebeu que era mais produtivo quando fazia pequenas pausas após alguns períodos de trabalho. Por isso, ele se valia de uma ampulheta que o fazia levantar de 50 em 50 minutos para descansos de 10 minutos para fazer alguns alongamentos, comer umas frutas, ir ao banheiro, etc. Ele afirma que esta é uma boa prática porque distrações são inevitáveis, logo, o melhor a se fazer é definir uma ordem para distração.
  3. Água sempre à mão enquanto trabalha. O senhor escritor de O Mulato fazia aquelas rápidas meditações, para decidir a melhor forma de escrever alguma idéia, ingerindo alguns goles d’água. Disse em uma carta à esposa que água o ajudava a receber inspiração, além disso, evitava ter que levantar antes do horário de descanso só para se hidratar.
  4. Dois projetos por vez, um por dia. Enquanto trabalhava em obras naturalistas, que denominava artísticas, Azevedo também escrevia romances de folhetim comerciais que ajudavam a manter as contas em dia. Ele sempre trabalhava em uma obra artística e umacomercial ao mesmo tempo, no entanto, só escrevia para uma ou outra por dia, para evitar se sentir sobrecarregado. Em um de seus diários vai escrito “…como o atleta que num dia exercita os braços e no outro as pernas, eu forço os meus bíceps naturalistas alternadamente com os gastrocnêmios românticos. Enquanto um músculo trabalha, outro descansa e ambos se desenvolvem…”
  5. Ambidestria. Passar horas e horas escrevendo não é fácil. Lesões nos punhos e ombros eram (e ainda são) um mal comum entre os autores. Além disso, o escritor em questão se recusava a “desperdiçar um membro útil” e treinou diariamente sua mão esquerda para escrever tão bem e rapidamente quanto a esquerda.
  6. Redação bosquejada. Ele aprendeu a desenhar e pintar quando pequeno. E é por isso que sua mesa de trabalho estava sempre cheia de ilustrações que fazia para serem utilizadas como referências do que deveria descrever de cada cena. O desenho o ajudava a não se sentir perdido e o impedia de ser prolixo.
  7. Inspirar-se lá fora. Seguindo os exemplos de Zola, que conviveu seis meses com os mineiros mineradores para escrever Germinal, A2 ia toda sexta feira para os bares de classe média e baixa “olhar o movimento“. Esta experiência com aqueles que analisava deu tamanha veracidade a suas obras que as suas vizinhas malediziam: “… eu é que não sei se Azevedo não andou se engatando nos toutiços das lavadeiras de quem ele fala em seus “livros nojentos” (como o povo se referia às obras naturalistas)”.
… Artur, meu irmão, espero um dia que meus métodos sirvam de inspiração para gerações futuras. Não para deixar testemunho de mim mesmo, mas para que sobreviva a obra sobre o homem… (Aluísio Azevedo, em uma carta ao irmão mais velho)
Créditos das imagens: Wikipedia e Editora Avenida