Dos sofrimentos da sensibilidade e da força para manter a serenidade

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“Quanto maior a sensibilidade, maior o sofrimento… muito sofrimento” – Leonardo da Vinci

Leonardo escreveu esta frase quando foi preso durante a juventude acusado de sodomia. Após algum tempo na prisão, ele foi libertado por falta de provas e porque ele e os amigos que foram presos eram filhos de pessoas importantes. O fato é que depois de libertado Leonardo se tornou ainda mais taciturno, misterioso e afastado das pessoas. Provavelmente ele foi acusado por um invejoso criador de intrigas ou, ainda pior, por um “amigo” com acesso à sua vida pessoal e outrora de sua confiança.

Entretanto, a maior lição desta história não é sobre a necessidade do silêncio e de manter sempre certo mistério com as pessoas, como temos falado nos últimos posts. O maior ensinamento é que o maestro não diminuiu em um só nível o seu grau de sensibilidade, sua capacidade de se impressionar e realizar boas obras. Exige-se muito amor para se fazer uma boa pintura. Amor pela arte, amor pelo objeto da pintura, amor pela cidade que vai ser adornada pela obra, amor por aqueles que irão apreciar a obra, amor pela posterioridade…

O que nós fazemos, seja no trabalho, na arte ou nos relacionamentos, exige auto-doação para ser bem feito. Aquele que não põe seu suor e lágrimas no que faz, dificilmente agrada. Não mencionamos apenas as altas doses de sentimentalismo e emocionalismo, mas também as demoradas ponderações racionais e frias. Tudo isso exige dedicação e, o medo que dá, tem a forma de “perda de tempo”. Porém, é fácil notar que a preocupação de desperdício é infantil, apesar de válida. A consciência madura percebe a transformação em si mesma proporcionado por tudo que busca fazer bem feito e, tendo este foco introspectivo, facilmente reconhece o valor mesmo dos mais fugazes momentos e obras, pois ela não espera que seja “bom por todo sempre” para entender a importância.

Entretanto, que não sejamos mal compreendidos, não estamos recomendando o envolvimento imprudente, mas o envolvimento com foco no autovalor e em desenvolver tudo que há de bom em si mesmo. Aquele que não sabe se valorizar é o mesmo que diz “não vou gostar daquele ou disto para evitar me magoar”. Por não se amar, pensa que tudo pode odiá-lo, por não se valorizar, exige valorização exterior. Desta perspectiva, pode até evitar alguma frustração, mas não priva da angústia de não ter tentado, do arrependimento de não ter se deixado sentir.

Fato é que para ter tanto sentimento, é necessária muita sensibilidade, que por sua vez pode ser severamente magoada. Porém, se reconhece o grande artista como aquele que enxuga suas lágrimas e continua pintado. Existem muitas obras esperando por pessoas corajosas para serem realizadas.

“Move-se o amante pela coisa amada” – Leonardo da Vinci

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